sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Isenção do IRPF decorrente de LER/DORT

A ISENÇÃO DO IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA PORTADORA DE LER/DORT


  Nos termos da Lei n.º 7.713/1988, artigo 6.º, inciso XIV, com da redação dada pela Lei n.º 11.052/1994, Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 – Regulamento do Imposto sobre a Renda – RIR/1999, art. 39, incisos XXXI e XXXIII, e § 6º; Instrução Normativa SRF nº 15, de 6 de fevereiro de 2001, art. 5º, incisos XII e XXXV, e §§ 1º a 4º, é isenta do imposto sobre a renda pessoa física, que incide sobre os valores decorrentes de seus proventos de aposentadoria, o portador de moléstia profissional.

Dentre as moléstias profissionais a mais conhecida é a LER/DORT, que acomete um grande número de profissionais, especialmente os bancários, sobre o qual discorreremos.

DA LER/DORT e o AUXÍLIO ACIDENTÁRIO

Uma vez diagnosticada a ocorrência da Doença Profissional, pelo empregador, deve por lei, emitir a CAT – Comunicação de Acidente de Trabalho, encaminhando o empregado imediatamente a perícia, perante o órgão previdenciário oficial (INSS), que por sua vez, através de seu setor pericial comprovando a LER/DORT, lhe concederá o auxílio-doença acidentário (E-91) e posteriormente, com a consolidação dos danos sofridos, o auxílio-acidente (E-94).

Portanto, ao ser concedido o auxílio-doença por LER/DORT e posteriormente o auxílio-acidente, pelo mesmo motivo, está totalmente caracterizado e comprovado a existência de doença laboral, gerando desde então a expectativa de direito à isenção do IRPF, que só se consolidará com a aposentadoria.

DO DIREITO À ISENÇÃO

A lei n.º 7.713/1988, em seu artigo 6.º, inciso XIV, reza expressamente que possui direito a isenção do IRPF, o aposentado que possua doença grave descrita na lei, ou tenha sido aposentado por invalidez decorrente de acidente de trabalho e FINALMENTE QUANDO POSSUIR MOLÉSTIA PROFISSIONAL, INDEPENDENTE DE TER SIDO OU NÃO APOSENTADO POR INVALIDEZ. Cite-se:

“Art. 6º Ficam isentos do imposto de renda os seguinte rendimentos percebidos por pessoas físicas:
(,,,)
XIV – os proventos de aposentadoria ou reforma motivada por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, hepatopatia grave, estados avançados da doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma; (Redação dada pela Lei nº 11.052, de 2004)” (grifos nossos)

Por seu turno o Decreto n.º 3000/1999 (RIR), prevê igualmente que são isentos os rendimentos provenientes de proventos de aposentadoria por portador de moléstia grave, e moléstia profissional, não sendo considerado como renda bruta para fins de tributação do IRPF. Cite-se:

Art. 39.  Não entrarão no cômputo do rendimento bruto:
(...)
“Proventos de Aposentadoria por Doença Grave

XXXIII - os proventos de aposentadoria ou reforma, desde que motivadas por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, estados avançados de doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome de imunodeficiência adquirida, e fibrose cística (mucoviscidose), com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma (Lei nº 7.713, de 1988, art. 6º, inciso XIV, Lei nº 8.541, de 1992, art. 47, e Lei nº 9.250, de 1995, art. 30, § 2º);” (grifos nossos)

A Receita Federal do Brasil normatizou sobre o assunto, por meio da IN SRF n.º 15/2001, com o reconhecimento e fruição do direito à isenção do IRPF decorrente de moléstia grave, moléstia profissional e invalidez decorrente de acidente de trabalho.

Inicialmente prevê o artigo 5º, incisos XII e XXXV, da IN SRF 15/2001, o direito à isenção do IRPF, cite-se:

“Rendimentos Isentos ou Não-Tributáveis

Art. 5º Estão isentos ou não se sujeitam ao imposto de renda os seguintes rendimentos:
(...)
XII - proventos de aposentadoria ou reforma motivadas por acidente em serviço e recebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, estados avançados da doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids) e fibrose cística (mucoviscidose); (grifos nossos)
(...)
XXXV - quantia recebida a título de pensão quando o beneficiário desse rendimento for portador das doenças relacionadas no inciso XII deste artigo, exceto as decorrentes de moléstia profissional;”

Observe-se que tanto na Lei do imposto de Renda, e em seu regulamento e na Instrução Normativa da Receita Federal, está garantida a fruição da isenção do IPRF ao aposentado, vinculado a existência de moléstia grave, ou moléstia profissional, devidamente comprovada.

DA LER/DORT COMO MOLÉSTIA PROFISSIONAL

A lei n.º 8213/1991, em seu artigo 20, “caput”, inciso I, considera como doença profissional assim entendida a produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social.

O artigo 21-A, da Lei n.º 8.213/1991, incluído pela Lei nº 11.430, de 2006, estabelece que a perícia do INSS, analisará a ocorrência de acidente de trabalho, no sentido lato, incluindo aqui a doença profissional, ao constatar ocorrência de nexo técnico epidemiológico entre o trabalho e o agravo, decorrente da relação entre a atividade da empresa e a entidade mórbida motivadora da incapacidade elencada na Classificação Internacional de Doenças - CID, em conformidade com o que dispuser o regulamento.

Ao se constatar via perícia oficial do INSS, a ocorrência de acidente de trabalho, ou doença do trabalho, em situações as quais o segurado fique incapacitado para seu trabalho, por mais de 15 (quinze) dias, assim como, o nexo técnico epidemiológico, será concedido o auxílio-doença acidentário, nos termos do artigo 59 e ss., da Lei n.º 8.213/1991.

Por sua vez o auxílio-acidente, nos termos do artigo 86, da Lei n.º 8.213/1991, com a redação dada pela Lei nº 9.528, de 1997, prevê a sua concessão após o término do auxílio-doença, quando houver a consolidação definitiva das lesões que geram àquele, reduzindo a capacidade laboral do segurado devido às sequelas existentes.

Portanto, temos aqui duas situações, sucessivas e interligadas, o auxílio-doença acidentário e o auxílio-acidente, sendo que, em ambos os casos, necessário a perícia médica oficial do INSS, e o nexo epidemiológico entre o trabalho e o agravo, uma vez comprovado o nexo, serão os benefícios concedidos, comprovando assim, a existência doença profissional.

Para fins didáticos, versemos sobre situação hipotética, de ex-bancário da CEF, que tenha diagnóstico de LER/DORT, devidamente reconhecida pela perícia do INSS, com a existência de nexo epidemiológico entre o trabalho e o agravo, possuindo sequelas irreparáveis com redução de capacidade laborativa, com percebimento de auxílio-doença acidentário e posterior auxílio-acidente.

O Decreto n.º 3.048/1999, com a redação dada pelo Decreto nº 6.042, de 2007 em seu artigo 337, estabelece que acidente do trabalho será caracterizado tecnicamente pela perícia médica do INSS, mediante a identificação do nexo entre o trabalho e o agravo; do acidente e lesão; a doença e o trabalho; e a causa mortis e o acidente.

Afirma ainda que em seu artigo 337, § 3.º, Lei n.º 3.048/1999, com a redação dada pelo Decreto nº 6.957, de 2009, o nexo entre o trabalho e o agravo, considera-se estabelecido, quando se verificar nexo técnico epidemiológico entre a atividade da empresa e a entidade mórbida motivadora da incapacidade, elencada na Classificação Internacional de Doenças - CID em conformidade com o disposto na Lista C do Anexo II.

Por força da Instrução Normativa do INSS/DC n.º 98, de 05/12/2003, que veio regulamentar a “atualização clínica das lesões por esforços repetitivos (LER) distúrbios osteomusculares relacionadas ao trabalho (DORT)”, considera-se como LER/DORT, entre outras moléstias Síndrome do Túnel do Carpo, Tenossinovite.

A seção II, da Instrução Normativa do INSS/DC n.º 98, de 05/12/2003, que versa sobre a “Norma Técnica de Avaliação da Incapacidade Laborativa – Procedimentos Administrativos e Periciais LER/DORT”, em seu item 06, que versa sobre a conduta médico pericial, dispõe que constatada a incapacidade laborativa com nexo causal caracterizado, se deferirá o auxílio-doença acidentário (E-91).

Dessarte, seguindo o entendimento esposado pela IN INSS/DC N.º 98/2003, o setor pericial do INSS ao reconhecer o nexo técnico epidemiológico entre a doença profissional ou o acidente de trabalho, deferiria a contribuinte o auxílio-doença acidentário, portanto, em tese já estaria comprovado seu direito à isenção do IRPF.

NEXO TÉCNICO EPIDEMIOLÓGICO E O CNAE

De crucial importância para fins de comprovação da LER/DORT, como doença profissional, e portanto, ensejar o direito à isenção do IRPF, é o cotejamento em entre CNAE DO RAMO DA EMPRESA OU DELA EM SI, COM O NEXO TÉCNICO EPIDEMIOLÓGICO, com as diversas doenças laborais.

Na lista C, do Decreto n.º 3.048/1999 (alterado pelo Decreto nº 6.957, de 9 de setembro de 2009 – DOU de 10/9/2009), são indicados intervalos de CID em que se reconhece Nexo Técnico Epidemiológico, na forma do §3º do art. 337, entre a entidade mórbida e as classes de CNAE indicadas, nelas incluídas todas as subclasses cujos quatro dígitos iniciais sejam comuns.

Ali consta, a relação CNAE da Caixa Econômica, empresa onde trabalhou a recorrente, e algumas das moléstias que acometem a recorrente, ou seja, a Síndrome do Túnel do Carpo (G56.0), Outros transtornos dos tecidos moles relacionados com o uso, o uso excessivo e a pressão (M70.8), Síndrome do Manguito Rotatório ou Síndrome do Supraespinhoso (M75.1) e Epicondilite Medial (M77.0), como comprovado a abaixo.

G50-G59       0155  1011  1012  1013  1062  1093  1095  1313  1351  1411  1412  1421  1529  1531  1532  1533  1539  1540  2063  2123  2211  2222  2223  2229  2349  2542  2593  2640  2710  2759  2944  2945  3240  3250  4711  5611  5612  5620  6110  6120  6130  6141  6142  6143  6190  6422  6423  8121  8122  8129  8610
M60-M79       0113  0155  0210  0220  1011  1012  1013  1020  1031  1033  1051  1052  1062  1064  1092  1093  1094  1095  1096  1099  1122  1311  1314  1321  1323  1340  1351  1352  1354  1359  1411  1412  1413  1414  1421  1510  1521  1529  1531  1532  1533  1540  1623  1732  1733  1742  1749  2040  2063  2091  2110  2121  2123  2211  2219  2221  2222  2223  2229  2312  2319  2342  2349  2439  2443  2449  2451  2531  2539  2541  2542  2543  2550  2591  2592  2593  2610  2631  2632  2640  2651  2710  2721  2722  2732  2733  2740  2751  2759  2813  2814  2815  2822  2823  2824  2840  2853  2854  2861  2864  2866  2869  2920  2930  2941  2942  2943  2944  2945  2949  3092  3101  3102  3104  3230  3240  3250  3291  3299  3316  3329  3701  3702  3811  3812  3821  3822  3839  3900  4221  4632  4634  4711  4713  4912  5111  5120  5212  5221  5222  5223  5229  5310  5320  5612  5620  6021  6022  6110  6120  6130  6141  6142  6143  6190  6209  6311  6399  6422  6423  6431  6550   7410  7490  7719  7733  8121  8122  8129  8211  8219  8220  8230  8291  8292  8299  8610  9420  9601

Note-se que as CID's do intervalo G50 A G59, M60 A 79, possuem nexo técnico epidemiológico com a atividade 6423 (Caixa Econômica), portanto, presente o Nexo Técnico Epidemiológico, como no caso em análise onde restou correlacionadas acima a atividade e a CID.

No caso em discussão, encontra-se verificado o nexo técnico epidemiológico entre a atividade da empresa e a entidade mórbida motivadora da incapacidade, elencada na Classificação Internacional de Doenças - CID em conformidade com o disposto na Lista C do Anexo II, portanto, está configurada a relação das moléstias profissionais da contribuinte com a sua atuação profissional.

CONCLUSÃO

De todo o exposto supra, conclui-se que o contribuinte aposentado que seja portador de LER/DORT, devidamente comprovado, possui o direito subjetivo a isenção do imposto de renda pessoa física sobre seus proventos de aposentadoria oficial (inss) e complementação recebidos por previdência privada.

Sendo que, havendo a comprovação da existência da LER/DORT, antes da aposentadoria, seu direito surge à partir da concessão desta, podendo, inclusive se aposentado a mais de 05 anos, restituir tudo que pagou de imposto de renda sobre a aposentadoria, durante os últimos cinco anos.

De outro lado, se a doença profissional só foi diagnosticada após a aposentadoria e mais de 05 anos, poderá além da isenção do imposto de renda futuro, restituir o pago nos últimos 05 anos, a titulo de IRPF sobre a aposentadoria.

Por derradeiro, se a constatação da doença ou aposentadoria se deu a menos de cinco anos, poderá restituir o imposto de renda, sobre o período após a constatação da LER/DORT, desde que, já estava aposentado.


Autor:
Leandro Jorge de Oliveira Lino, advogado, especialista em isenções tributárias do IRPF, IPI, ICMS e IPVA.
Proprietário do escritório de advocacia Lino Advogados

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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Bolsa de estudo médico residente e IRPF

A bolsa de estudo paga a médico residente pagas decorrentes da residência médica é isento de imposto de renda, seja na fonte ou na declaração de ajuste anual.

Este foi o entendimento da SOLUÇÃO DE CONSULTA Nº 101 de 16 de Setembro de 2013, da Receita Federal.

domingo, 13 de outubro de 2013

Isenção imposto de renda - juros de mora - consolidação da jurisprudência

A Turma Nacional de Uniformização de Jurisprudências dos Juizados Especiais Federais - TNU, que é o órgão máximo da segunda instância dos Juizados Federais - JEF, em julgamento realizado em 09/10/2013, alterou a sua jurisprudência mediante um pedido de unificação de jurisprudência feito pela Receita Federal.

Neste pedido a União, requereu a alteração de jurisprudência da corte para se adequar a entendimento já existente no STJ sobre a incidência de Imposto de Renda sobre os juros de mora, especialmente, em ações previdenciárias.

Na argumentação da União, que acabou sendo acolhida, a questão em discussão foi reexaminada em 2012 pelo STJ, no julgamento do Recurso Especial 1.089.720/RS. Na ocasião, a Corte firmou o entendimento de que incide imposto de renda sobre os juros de mora, com base no artigo 16 da Lei 4.506/64, inclusive em reclamações trabalhistas. 

As exceções são apenas duas: quando a verba principal for isenta ou não tributada ou quando se tratarem de verbas rescisórias decorrentes de perda do emprego, havendo reclamação trabalhista ou não – independentemente de ser a verba principal isenta ou não tributada. 

Diante desta decisão está mais uma vez comprovado que o Poder econômico supera o Direito, visto que, até esta decisão a TNU seguindo entendimento existente em outro julgamento do STJ, entendia que os juros pela mora (inadimplência) eram decorrentes de ato ilícito, portanto, tinha caráter de indenização, não incidindo o imposto de renda.

Agora com esta nova decisão, todos os processo que estão aguardando julgamento nas instâncias inferiores do Juizado Especial Federal, seguirão seguramente tal entendimento, que é muito prejudicial ao contribuinte,

Devemos no entanto, ressaltar afinal que os aposentados com moléstia grave ou profissional, são isentos do imposto de renda sobre os proventos de aposentadoria, portanto, como o principal (proventos) são isentos, os acessórios (juros) também serão, em eventual ação revisional de aposentadoria.

Neste mesmo sentido temos os pensionistas com moléstia grave, sendo isentos os recebimentos de pensão, portanto, o principal (pensão) é isento, o acessórios juros também serão.

Processo 5000554-76.2012.4.04.7113

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

TRT reconhece depressão como doença profissional

 O TRT da 3.ª região (MG), ao julgar um recurso interposto contra sentença que condenou a empresa a pagar indenização ao trabalho decorrente de moléstia profissional, assim como, os valores correspondentes a estabilidade de 1 ano, entendeu que a depressão pode ser considerada moléstia profissional.

Definiu a sentença de primeira instância que com base em laudo perito judicial, ficou comprovado que o local de trabalho e as condições a que a trabalhadora era submetida, inclusive com horas extras rotineiras, lhe causaram estafa, e desencadeando uma depressão decorrente de sobrecarga profissional, falta de convívio com entes familiares.

Segundo o Desembargador que analisou a questão, Sércio da Silva Peçanha, explicou que o artigo 20 da Lei 8.213/91 define as doenças consideradas acidente do trabalho pela Previdência Social. Mas a lista é exemplificativa. O parágrafo 2º do dispositivo abre a possibilidade de que outras doenças sejam assim consideradas. São casos excepcionais, em que a doença resulta das condições especiais em que o trabalho é executado e com ele se relaciona diretamente. Segundo o magistrado, a previsão legal se sobrepõe à relação de doenças ocupacionais previstas no Decreto 3.048/99, que também não é taxativa, mas exemplificativa.

Tal decisão é extremamente importante, tendo reflexos inclusive na seara tributária, especialmente no imposto de renda, visto que, a indenização por danos morais e supletiva a estabilidade são isentas do IR.

Além disto, este trabalhador quando vier a aposentar-se poderá requerer a isenção do Imposto de renda Pessoa Física, sobre seus proventos de aposentadoria, por ser portador de moléstia profissional reconhecida em juízo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

DIREITO À ISENÇÃO TRIBUTÁRIA PARA O PORTADOR DE VISÃO MONOCULAR

DIREITO À ISENÇÃO TRIBUTÁRIA PARA O PORTADOR DE VISÃO MONOCULAR

* LEANDRO JORGE DE OLIVEIRA LINO

Inicialmente devemos firmar um conceito que será utilizado em nossa argumentação, qual seja ser portador de visão monocular é sinônimo de ser Cegueira Parcial, consequentemente deficiente visual.

Neste artigo, portanto, usaremos a expressão Cegueira Parcial, para fins de estudo do direito à isenção tributária, decorrente da visão monocular, opção esta para nos utilizarmos do modelo adotado na legislação tributária.

.1 – DAS ISENÇÕES POSSÍVEIS

Neste estudo nos limitaremos a discutir as isenções tributárias do Imposto de Renda Pessoa Física, IPI e ICMS, ao portador de cegueira parcial.

Demonstraremos que é juridicamente admissível o usufruto pelos contribuintes que forem portadores da moléstia grave, da espécie Cegueira Parcial, do direito à isenção do imposto de Renda Pessoa Física, pois são tecnicamente portadores de Cegueira e, portanto, portadores de deficiência visual.

No que se refere às isenções do IPI e ICMS, comprovaremos que em termos jurídicos o portador de Cegueira Parcial deve ser considerado Portador de Necessidades Especiais e, assim sendo, faz jus ao gozo da isenção destes tributos.

.2 – DA ISENÇÃO DO IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA

O imposto de renda pessoa física atualmente é regulamentado pelo artigo 6.º, inciso XIV e XXI, da Lei n.º 7.713/1988 e Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 – Regulamento do Imposto sobre a Renda – RIR/1999, art. 39, incisos XXXI e XXXIII.

De acordo com a legislação, aposentados e pensionistas portadores de moléstia grave, descritas na Lei, possuem o direito à isenção do IRPF, sobre o valor dos proventos de aposentadoria e pensão, sejam recebidos de órgãos públicos (INSS, Fazenda Pública Estadual, Municipal ou Federal) e os recebidos como complementação de entidade privada (previdência privada).

Dentre as doenças que a lei considera como grave encontra-se a Cegueira, sendo que não distingue a legislação, se trata de cegueira total ou parcial, portanto, tudo que se considere medicamente como cegueira, deve ser da mesma maneira considerado para fins de isenção.

Caso o legislador quisesse abranger apenas a cegueira total, assim teria disposto na legislação, o que salvo melhor juízo, seria inconstitucional, pois, feriria o princípio da isonomia jurídica tributária.

A despeito de o legislador ter considerado como doença grave a cegueira de modo genérico, não é esta a interpretação feita pela Receita Federal, visando uma arrecadação maior e desconsiderar o direito a isenção do imposto de renda.


Segundo o entendimento esboçado na Solução de Consulta n.º 42/2013, de 08/03/2013, da Receita Federal, somente a Cegueira Total gera o direito a isenção do IRPF. Cite-se:

“ASSUNTO: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF

EMENTA: ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. CEGUEIRA. A lista das doenças graves elencadas no inciso XIV, do art. 6º, da Lei 7.713/88, é exaustiva, cuja interpretação não pode ser ampliada em função do disposto no art. 111, II, do CTN. Assim, se o inciso coloca sob o manto da isenção os proventos de aposentadoria ou reforma percebidos por portadores de cegueira, aqui entendida como aquela pessoa impossibilitada de enxergar (CID 54.0), não cabe abarcar no mesmo benefício os portadores de cegueira parcial (visão monocular - CID 54.4).” (sem grifos no original)

Aludida interpretação feita pela Receita Federal, com base no artigo 111, II, do CTN, em qual determina que as interpretações de isenções tributárias devam ser feitas de forma literal, não nos surpreende, visto que, ano a ano observamos a gana arrecadatória do fisco, do tributar por tributar.

No entanto, esta interpretação literal, além de ser a mais pobre de todas, não é melhor a ser feita, visto que, temos que buscar a finalidade da legislação (mens legis), que nada mais é que dar maiores condições de tratamento ao doente grave, portanto, quando o legislador optou por elencar a cegueira como moléstia passível de isenção, o fez pensando em todos os tipos de cegueira, não tão somente na total.

Ademais disto, ao fazermos uma interpretação literal, não podemos criar direitos, mas tampouco podemos negá-los, sob pena de ilegalidade e inconstitucionalidade.

Considera-se inconstitucional a interpretação feita, ou lei, que exclua de pessoas em situações iguais ou equivalentes, direito iguais, ferindo assim os princípios constitucionais da isonomia tributária e legalidade.

De acordo com o Código Internacional de Doenças (CID 10), consideram-se como cegueira as moléstias compreendidas no CID E 50.5, H53.6, H54 a H54.4 e Z82.1:

“Código Doença
E50.5 Deficiência de vitamina A com cegueira noturna
H53.6 Cegueira noturna
H54 Cegueira e visão subnormal
H54.0 Cegueira, ambos os olhos
H54.1 Cegueira em um olho e visão subnormal em outro
H54.4 Cegueira em um olho
Z82.1 História familiar de cegueira e perda de visão”

Apesar de a Receita Federal, entender que não entra no direito a isenção do IRPF a cegueira parcial (CID H54.4), não é este o entendimento predominante no STJ, que segundo sua jurisprudência, ao versar sobre a Cegueira, o legislador teve a intenção de abranger todas as espécies de Cegueira, principalmente a parcial.

Vejamos as decisões do STJ:

“TRIBUTÁRIO. IRPF. ISENÇÃO. ART. 6º, XIV, DA LEI 7.713/1988. INTERPRETAÇÃO LITERAL. CEGUEIRA. DEFINIÇÃO MÉDICA. PATOLOGIA QUE ABRANGE TANTO O COMPROMETIMENTO DA VISÃO BINOCULAR QUANTO MONOCULAR. CONCLUSÕES MÉDICAS. SÚMULA 7/STJ.
1. O cerne do debate refere-se à isenção de imposto de renda sobre proventos de aposentadoria a pessoa portadora de cegueira.
2. O Tribunal de origem, com espeque no contexto-fático, concluiu pela existência da patologia isentiva. Incidência da Súmula 7/STJ.
3. Da análise literal do dispositivo em tela, art. 6º, XIV, Lei n. 7.713/88, não há distinção sobre as diversas espécies de cegueira, para fins de isenção.
4. Afasta-se por fim a alegada violação do art. 111 do CTN, porquanto não há interpretação extensiva da lei isentiva, já que "a literalidade da norma leva à interpretação de que a isenção abrange o gênero patológico "cegueira", não importando se atinge a visão binocular ou monocular." (REsp 1196500/MT, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 02/12/2010, DJe 04/02/2011.) Agravo regimental improvido.”
(AgRg no AREsp 121.972/DF, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 24/04/2012, DJe 02/05/2012) (grifos nossos)

“TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. ISENÇÃO. "DEFICIÊNCIA AUDITIVA SENSÓRIA NEURAL BILATERAL PROFUNDA IRREVERSÍVEL". MOLÉSTIA NÃO PREVISTA NO ROL TAXATIVO DO ART. 6º, INCISO XIV, DA LEI N. 7.713/88. IMPOSSIBILIDADE DE INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA. ART. 111 DO CTN. ORIENTAÇÃO ADOTADA EM SEDE DE RECURSO REPETITIVO, NA FORMA DO ART. 543-C, DO CPC. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.
1. Nos autos do REsp n. 1.196.500/MT, julgado em 2.12.2010, esta Turma entendeu que a cegueira prevista no art. 6º, XIV, da Lei n. 7.713/88 inclui tanto a binocular quanto a monocular. Tal entendimento é permitido pelo art. 111, II, do CTN, eis que a literalidade da legislação tributária não veda a interpretação extensiva. Assim, havendo norma isentiva sobre a cegueira, conclui-se que o legislador não a limitou à cegueira binocular. No caso dos autos, contudo, a isenção concedida na origem não se arrimou em interpretação extensiva com base na literalidade da lei; antes, o Tribunal de origem laborou em interpretação analógica, o que não é permitido na legislação tributária para a hipótese. A cegueira é moléstia prevista na norma isentiva; a surdez não.
2. A Primeira Seção desta Corte, quando do julgamento do REsp n. 1.116.620/BA, de relatoria do Ministro Luiz Fux, na sistemática do art. 543-C, do CPC, pacificou entendimento no sentido de que o rol de moléstias passíveis de isenção de imposto de renda previstas no inciso XIV do art. 6º da Lei n. 7.713/88 é taxativo (numerus clausus), vale dizer, restringe a concessão de isenção às situações nele enumeradas.
3. O Poder Judiciário não pode substituir a vontade do legislador para conceder isenção onde a lei não prevê, sobretudo porque o art. 111 do CTN somente permite a interpretação literal de normas concessivas de isenção. Não se pode considerar que a omissão do legislador em incluir a surdez no rol do art. 6º, XIV, da Lei n. 7.713/88 tenha sido em razão de falha ou esquecimento e, ainda que esse fosse o caso, não poderia o julgador estender o benefício fiscal à hipótese não contemplada pela norma. Assim, o acórdão recorrido merece reforma, eis que, laborando em interpretação analógica, equiparou a deficiência auditiva do contribuinte à cegueira, sendo que somente a última encontra-se no rol do referido dispositivo legal.
4. Recurso especial provido.”
(REsp 1013060/RJ, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 10/05/2011, DJe 08/06/2012) (grifos nossos)


“TRIBUTÁRIO. IRPF. ISENÇÃO. ART. 6º, XIV, DA LEI 7.713/1988. INTERPRETAÇÃO LITERAL. CEGUEIRA. DEFINIÇÃO MÉDICA. PATOLOGIA QUE ABRANGE TANTO O COMPROMETIMENTO DA VISÃO NOS DOIS OLHOS COMO TAMBÉM EM APENAS UM.
1. Hipótese em que o recorrido foi aposentado por invalidez permanente em razão de cegueira irreversível no olho esquerdo e pleiteou, na via judicial, o reconhecimento de isenção do Imposto de Renda em relação aos proventos recebidos, nos termos do art. 6º, XIV, da Lei 7.713/1988.
2. As normas instituidoras de isenção devem ser interpretadas literalmente (art. 111 do Código Tributário Nacional). Sendo assim, não prevista, expressamente, a hipótese de exclusão da incidência do Imposto de Renda, incabível que seja feita por analogia.
3. De acordo com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), da Organização Mundial de Saúde, que é adotada pelo SUS e estabelece as definições médicas das patologias, a cegueira não está restrita à perda da visão nos dois olhos, podendo ser diagnosticada a partir do comprometimento da visão em apenas um olho. Assim, mesmo que a pessoa possua visão normal em um dos olhos, poderá ser diagnosticada como portadora de cegueira.
4. A lei não distingue, para efeitos da isenção, quais espécies de cegueira estariam beneficiadas ou se a patologia teria que comprometer toda a visão, não cabendo ao intérprete fazê-lo.
5. Assim, numa interpretação literal, deve-se entender que a isenção prevista no art. 6º, XIV, da Lei 7.713/88 favorece o portador de qualquer tipo de cegueira, desde que assim caracterizada por definição médica.
6. Recurso Especial não provido.
(REsp 1196500/MT, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 02/12/2010, DJe 04/02/2011)”

Seguindo a mesma linha de raciocínio do STJ, encontramos o julgamento proferido pelo CARF—Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, sobre o tema o qual entendeu que o portador de visão monocular possui direito a isenção do imposto de renda pessoa física, cujo acórdão segue ementado:

“Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física ¬ IRPF Exercício: 2004
Ementa:

RENDIMENTOS DE APOSENTADORIA. ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. CEGUEIRA PARCIAL. ALCANCE.

A lei que concede a isenção do IRPF sobre os proventos de aposentadoria de contribuinte portador de cegueira não faz qualquer ressalva de que apenas o portador de cegueira total faça jus ao benefício, o que implica reconhecer o direito ao benefício isentivo àquele acometido de cegueira parcial.

Recurso Voluntário Provido.”

De acordo com o exposto supra, apesar de a Receita Federal não reconhecer o direito a isenção do imposto de renda pessoa física ao portador de visão monocular, este não é entendimento predominante no órgão julgador máximo administrativo da Fazenda Nacional e da Justiça, dessarte, conclui-se que o Cego parcial, desde que aposentado ou pensionista, faz jus a isenção do imposto de renda nos termos da Lei.

.3 – DA ISENÇÃO DO IPI e ICMS

Neste tópico discorremos sobre o direito a isenção do IPI e ICMS ao portador de visão monocular, visto que, é considerado legalmente como Portador de Necessidades Especiais e, assim sendo, deve ter seu direito à isenção destes tributos.

.3.1- DO ENQUADRAMENTO COMO PNE

Mais uma vez colide em erro o Fisco, ao negar o direito à isenção tributária dos impostos IPI e ICMS ao portador de Visão Monocular, pois deve ser este considerado como Portador de Necessidades Especiais.

A visão monocular está enquadrada no CID H54.4, pertencendo ao rol de moléstias consideradas como subtipos de Cegueira, portanto, considera-se como deficiência visual permanente.

Corroborando tal entendimento, temos a letra do art. 3°, I e II do Decreto nº 3.298/99 que regulamenta a Lei nº 7.853/89 (que dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência), no qual é considerado deficiência:

“Art. 3º, I – deficiência - toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano.

II - deficiência permanente – aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere, apesar de novos tratamentos;”

O portador de visão monocular possui “perda ou anormalidade de uma função fisiológica ou anatômica”, gerando incapacidade para o desempenho de atividade dentro do padrão considerado normal para o ser humano, que é no caso, ser possuidor de visão binocular.

No que se concerne à incapacidade para o desempenho de atividade, ao portador de Visão Monocular é fácil de constatar, visto que, a anomalia causa incapacidade ao indivíduo, ficando este limitado para o exercício de diversas atividades, aumentando a dificuldade para ingressar no mercado de trabalho. 

De outro lado, temos a Lei n.º 7.853, DE 24 DE OUTUBRO DE 1989, que entre outros assuntos dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras de deficiência, sua integração social, que diz claramente em seu artigo 1.º, §1.º, que na intepretação e aplicação da lei, devem ser considerados os princípios da dignidade da pessoa humana, justiça social, bem-estar entre outros.

“Art. 1º Ficam estabelecidas normas gerais que asseguram o pleno exercício dos direitos individuais e sociais das pessoas portadoras de deficiências, e sua efetiva integração social, nos termos desta Lei.

§ 1º Na aplicação e interpretação desta Lei, serão considerados os valores básicos da igualdade de tratamento e oportunidade, da justiça social, do respeito à dignidade da pessoa humana, do bem-estar, e outros, indicados na Constituição ou justificados pelos princípios gerais de direito.”

Seguindo o disposto na lei n.º 7.853/1989, a interpretação que deve ser feita de seus termos e consequentemente do seu regulamento (Decreto n.º 3.298/99), é a que consagre os princípios da igualdade, dignidade da pessoa humana, justiça social entre outros, neste sentido, ao considerarmos o portador de visão monocular como Portador de Necessidades
Especiais, aludidos princípios estarão totalmente consagrados.

Temos que ainda considerar que seguindo esta linha raciocínio algumas legislações estaduais, definem claramente o portador de visão monocular como portador de necessidades especiais, as quais devem ser consideradas para fins de aplicação da isenção tributária, especialmente do ICMS.

Como exemplo temos a Lei n.º 920, de 13/09/1995 do Distrito Federal, que seu artigo 1.º considera o portador de visão monocular como portador de necessidades especiais, para fins de concessão de próteses, cite-se:

“Art. 1º. Fica a Secretaria de Saúde do Distrito Federal obrigada a fornecer aparelhos de órtese e/ou prótese aos portadores de deficiência:
I - física;
II - auditiva;
III - mental com paralisia cerebral;
IV - visual ambliope, visão monocular ou com cegueira total”. (grifo nosso)

Igualmente temos a Lei n.º 14.481, DE 13 DE JULHO DE 2011, do Estado de São Paulo que considera o portador de Visão Monocular como portador de deficiência visual, portanto, portador de necessidades especiais.

“LEI Nº 14.481, DE 13 DE JULHO DE 2011

Classifica a visão monocular como deficiência visual.

O GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO:
Faço saber que a Assembleia Legislativa decreta e eu promulgo a seguinte lei:
Artigo 1º - Fica classificada como deficiência visual a visão monocular.”

Como corolário do direito a isonomia geral, temos a isonomia tributária, segundo a qual, o fisco não pode instituir ou cobrar tributos de forma desigual aos contribuintes em situações equivalentes.

Ao se aplicar a isenção tributária do IPI ao portador de visão monocular, restarão consagrados todos os princípios constitucionais tributários e os legalmente descritos na legislação regulamentadora dos direitos dos Portadores de Necessidades Especiais.

.3.2- DA ISENÇÃO DO IPI

Segundo a Lei n.º 8.989/1995, com a redação dada pela Lei n.º 10.690/2003, que regulamenta o direito à isenção do IPI, traz em seu artigo 1.º, “caput”, inciso IV, que “ficam isentos do imposto os automóveis de passageiros de fabricação nacional, equipados com motor de cilindrada não superior a dois mil centímetros cúbicos, de no mínimo quatro portas inclusive a de acesso ao bagageiro, movidos a combustíveis de origem renovável ou sistema reversível de combustão, quando adquiridos por pessoas portadoras de deficiência física, visual, mental severa ou profunda, ou autistas, diretamente ou por intermédio de seu representante legal”.

Para fins de concessão do direito a isenção do IPI diz que a lei define o que se considera deficiente visual, artigo 1.º, §2.º: “ ...é considerada pessoa portadora de deficiência visual aquela que apresenta acuidade visual igual ou menor que 20/200 (tabela de Snellen) no melhor olho, após a melhor correção, ou campo visual inferior a 20°, ou ocorrência simultânea de ambas as situações”.

No entanto, como já disposto no item 3.1 deste artigo, a legislação federal que trata dos direitos dos portadores de necessidades especiais, determina que seja feita a interpretação dela e consequentemente de seu regulamento, de forma a consagrar os princípios da igualdade, justiça social, dignidade da pessoa humana, bem estar, entre outros.

Considerando que de acordo com a definição trazida pelo regulamento do IPI conjugado com a Lei dos deficientes físicos, o portador de visão monocular ou cego parcial, é deficiente físico, para os devidos fins.

Não se pode admitir, desta maneira, que ao mesmo tempo considerado como deficiente por uma lei e não por outra.

Estamos aqui diante de um conflito aparente de normas, que ao nosso sentir deve prevalecer o entendimento, de que o portador de visão monocular é deficiente visual e, portanto, possuidor do direito a isenção do IPI, através de aplicação de interpretação que consagre os princípios da isonomia tributária e da dignidade de pessoa humana.

Não se podem negar direitos iguais a pessoas em situações semelhantes, tão somente visando uma interpretação puramente literal, pois a definição trazida pela Lei do IPI, é aplicável àquele que possua visão nos dois olhos ainda que muito comprometida, podendo ser considerado um “quase cego”.

O Cego monocular ou portador de visão monocular, já não possui a visão em um dos olhos, portanto, não há como se fazer aferição descrita na lei, e sendo considerado legalmente como portador de necessidades especiais, faz jus à isenção do IPI.

.3.3 – DA ISENÇÃO DE ICMS

Apesar do ICMS ser um imposto de competência Estadual, as Fazendas Estaduais, por meio do CONFAZ, para evitar a ocorrência de divergências entre Estados e, portanto, a guerra fiscal, firmam convênios entre si, que passam a integrar o patrimônio jurídico dos Estados-Federados anuentes.

Neste sentido temos o atual Convênio ICMS do CONFAZ n.º 38, de 30/03/2012, que foi ratificado nacionalmente através do Ato Declaratório n.º 05/2012, publicado no DOU de 26.04.2012, que rege o ICMS em âmbito nacional trazendo as principais diretrizes, sendo complementado pelas legislações estaduais.

Nos termos do Convênio ICMS CONFAZ n.º 38/2012, em sua cláusula primeira, prevê o direito a isenção do ICMS para aquisição de automóvel por portadores de deficiência física, visual, mental severa ou profunda, ou autistas, diretamente ou por meio de seus representantes.

Define o convênio quem é deficiente visual, nos termos da cláusula segunda:

“Cláusula segunda - Para os efeitos deste convênio é considerada pessoa portadora de:

I - deficiência física, aquela que apresenta alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções;

II - deficiência visual, aquela que apresenta acuidade visual igual ou menor que 20/200 (tabela de Snellen) no melhor olho, após a melhor correção, ou campo visual inferior a 20º, ou ocorrência simultânea de ambas as situações;” (grifos nossos)

Da leitura dos termos do convênio percebe-se claramente que ele segue os exatos termos da Lei n.º 8.989/1995 (Lei do IPI), ocorrendo no mesmo erro da legislação federal, pois o portador de visão monocular é considerado por si só deficiente visual e não há como medicamente se realizar a aferição de acuidade visual dele, mediante a comparação de um olho com o outro, visto que, portador de visão monocular é cego de um dos olhos, esta aferição por óbvia é impossível.

No Estado de São Paulo o Regulamento do ICMS (Decreto 45.490, de 30-11-2000, com a redação dada pelo Decreto 49.203 de 1º-12-2004) em seu artigo 19, prevê claramente o direito a isenção do ICMS para aquisição de automóveis por portadores de necessidades especiais, remetendo a apuração do direito a comprovação das condições descritas na Lei do IPI.
Portanto, para a Fazenda Estadual de SP, o portador de visão monocular deve cumprir o requisito da aferição visual descrito na Lei do IPI, para ser considerado portador de necessidades especiais, da espécie deficiente visual, para ter o direito à isenção do ICMS.

No entanto, aqui cabem duas ressalvas:
1ª – a Lei Estadual Paulista n.º 14.481, DE 13 DE JULHO DE 2011, classifica o portador de visão monocular, como portador de deficiência visual, portanto, independente da previsão no RICMS SP que deve cumprir os requisitos da Lei do IPI para isentar o ICMS, fazendo uma interpretação sistemática da legislação, defendemos que com o reconhecimento jurídico (em lei) da deficiência visual ao monocular, automaticamente está enquadrado na hipótese legal de isenção do ICMS, seja com base no RICMS ou no Convênio do CONFAZ.

A 2.ª ressalva a ser feita versa sobre a questão da interpretação legal, com base nos princípios constitucionais da isonomia tributária, justiça social, dignidade da pessoa humana, como corolário a eles a melhor interpretação a ser feita é a que se reconheça o direito ao portador de visão monocular a isenção do ICMS, por ser portador de deficiência visual.

3.4 – DO ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL

O entendimento apresentado neste artigo está consoante com a jurisprudência nacional, uma vez que, os tribunais superiores (especialmente) têm sido sensíveis a questão do “enquadramento” do portador de visão monocular como deficiente visual, lhe garantindo a isenção do IPI, ICMS e inclusive o ingresso em via concurso público em vagas destinadas aos portadores de necessidades especiais.

O STJ através da edição da súmula de jurisprudência n.º 377 consagra o direito dos portadores de visão monocular concorrem a vagas destinadas aos deficientes, portanto, reconheceu claramente que a visão monocular é uma deficiência para todos os fins de direito.

“STJ Súmula nº 377 - 22/04/2009 - DJe 05/05/2009
Portador de Visão Monocular - Vagas Reservadas aos Deficientes
    O portador de visão monocular tem direito de concorrer, em concurso público, às vagas reservadas aos deficientes.” (grifos nossos)

Nesta esteira de entendimento temos o julgado do STF, no Recurso em Mandado de Segurança que definiu que o portador de visão monocular padece de deficiência que impede a comparação entre dois olhos para saber qual deles é o melhor, portanto, não lhe é aplicável a exigência de aferição visual para fins configurar o direito a isenção do IPI e ICMS, sendo, portanto, considerado portador de deficiência visual. Cite-se:

“EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. CONCURSO PÚBLICO. CANDIDATO PORTADOR DE DEFICIÊNCIA VISUAL. AMBLIOPIA. RESERVA DE VAGA. INCISO VIII DO ART. 37 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. § 2º DO ART. 5º DA LEI Nº 8.112/90. LEI Nº 7.853/89. DECRETOS NºS 3.298/99 E 5.296/2004. 1. O candidato com visão monocular padece de deficiência que impede a comparação entre os dois olhos para saber-se qual deles é o "melhor". 2. A visão univalente -- comprometedora das noções de profundidade e distância -- implica limitação superior à deficiência parcial que afete os dois olhos. 3. A reparação ou compensação dos fatores de desigualdade factual com medidas de superioridade jurídica constitui política de ação afirmativa que se inscreve nos quadros da sociedade fraterna que se lê desde o preâmbulo da Constituição de 1988. 4. Recurso ordinário provido.

(RMS 26071, Relator(a):  Min. CARLOS BRITTO, Primeira Turma, julgado em 13/11/2007, DJe-018 DIVULG 31-01-2008 PUBLIC 01-02-2008 EMENT VOL-02305-02 PP-00314 RTJ VOL-00205-01 PP-00203 RMP n. 36, 2010, p. 255-261) (grifos nossos)


4 –DA CONCLUSÃO

A guisa de conclusão pode-se afirmar seguramente com base na legislação pátria, e na jurisprudência, assim como, utilizando-se de uma exegese que consagre os princípios constitucionais de isonomia tributária, dignidade da pessoa humana e justiça social, que o portador de visão monocular possui direito a isenção dos impostos federais: Imposto sobre a renda pessoa física e; Imposto produtos industrializados (IPI), assim como, do imposto Estadual sobre circulação e movimentação de mercadorias e serviços (ICMS).

No que concerne especificamente ao direito de isenção do IPI e ICMS ao portador de Visão monocular, não é demais relembrar, que tais isenções se baseiam na sua situação jurídica de portador de deficiência visual, portanto, portador de necessidades especiais.

Certamente, o Fisco Federal, quanto o Estadual, farão a interpretação pró-arrecadação indeferindo o pedido de isenção destes tributos ao portador de visão monocular, o qual deverá socorrer-se de advogado especialista em Direito Tributário, para ingressar com ação judicial, com o fito de reparar a ilegalidade perpetrada pelos agentes fazendários.



* Advogado, inscrito na OAB/SP n. º 218.168, especialista em Direito Tributário, sócio do escritório Lino Advocacia, blog: http://www.linoadvocacia.blogspot.com.br, e-mail: leandro@linoadvocacia.com.br

















sábado, 21 de setembro de 2013

Receita Federal criar a Consulta vinculante

A nova Instrução normativa da Receita Federal, cria o sistema de consulta vinculante, parecido com o sistema de súmulas vinculantes do Judiciário.

Pela Instrução Normativa, as soluções de Consulta feitas pela COSIT e de divergência, diante de entendimentos diversos existentes na Receita Federal, terá efeito vinculante a toda a estrutura da Receita Federal, têm efeito vinculante.

O que é de certa forma bom para os contribuintes, pois com a vinculação a consulta o tema já decidido não poderá ser interpretado de forma diferente a interpretação dada pela Consulta Vinculante, trazendo uma relativa segurança jurídica.

A segurança jurídica é relativa, pois apesar de facilitar aos contribuintes conhecerem o entendimento administrativo-jurídico da Receita Federal, aludido entendimento poderá ser modificado pela COSIT em outra consulta, ademais disto, é sabido que a grande maioria das vezes o entendimento fazendário é sempre pró-fisco.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Isenção de IRPF - resgate previdência Privada - moléstia grave ou profissional

Preparamos mais uma ação contra a Receita Federal, na linha de defesa da isenção do IRPF decorrente de moléstia grave ou profissional para os aposentados.

A Receita Federal, defende que a Lei diz que só tem direito à isenção do IRPF o aposentado que receber "proventos de aposentadoria" mensal, do INSS, Governo ou Entidade Privada (complementar).

No entanto, entenda-se como "proventos de aposentadoria", todos os valores recebidos decorrentes da aposentadoria, e acumulados durante os anos, uma "poupança" feita para a velhice, desta forma, os resgaste de previdência privada, sejam total ou parcial, são proventos de aposentadoria.

Desta forma, o aposentado que fizer tais resgastes e for portador de moléstia grave ou profissional, tem direito à isenção do IR retido na fonte e a restituição do que foi pago, visto que, a isenção deve ser analisada de forma clara, e não literal, ferindo os princípios da igualdade, legalidade e dignidade da pessoa humana.

Em Direito Tributário, existe um entendimento que a origem da verba é que importa para a tributação e não o nome que recebe, desta forma, sendo sua origem complemento de aposentadoria (previdência privada) recebido mensalmente, ou resgate único ou parcial, são proventos, independente do nome que recebem, e estão abarcados pelo direito à isenção.